30 de Outubro de 2020
helenabonzinho

Numa altura em que os números da COVID-19 parecem não dar tréguas, importa olhar para a forma como as organizações da Rede Social têm estado a responder aos impactos que a pandemia está a ter na vida das famílias.

Desde a altura do confinamento obrigatório, que os vários mecanismos implementados no município para dar apoio social, sinalizavam um aumento das dificuldades. Foi sendo constatado, nomeadamente, que algumas famílias viram os seus rendimentos reduzidos ou tiveram mesmo de lidar com a perda de postos de trabalho, ficando limitadas na resposta a necessidades básicas como a alimentação e pagamento de despesas com a habitação.

Neste quadro, tem-se verificado um nítido aumento dos pedidos de ajuda às entidades que se dedicam ao combate à privação material. É o caso do Centro Paroquial Nª Srª da Conceição da Abóboda (CESPA) em Talaíde onde Rita Verças, Assistente Social, afirma ter-se registado um aumento da procura na ordem dos 50%, sobretudo na área alimentar, mas também no apoio pecuniário para o pagamento de rendas. “A maior parte das famílias chega-nos de forma particular, por iniciativa própria”, refere.

O CESPA é uma das seis entidades do concelho beneficiárias do Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC) e contou com este apoio para fazer face à atual situação de exceção. Este Programa estatal visa especificamente combater a pobreza e a exclusão social, proporcionando o acesso a alimentação e a outros produtos de consumo básico, a famílias em situação de carência.

Cabe às organizações locais sinalizar as pessoas que precisam de apoio, fazer o armazenamento e a distribuição dos alimentos, e prestar também acompanhamento social aos munícipes apoiados.

Outra entidade que é beneficiária do POAPMC é a Associação Gaivotas da Torre. Sofia Costa, técnica do Gabinete de Ação Social, registou um aumento de pedidos de ajuda ainda mais expressivo, a rondar os 70%. “A nossa instituição apoiava 98 famílias (263 pessoas) e neste momento apoiamos 189 famílias, ou seja, 436 pessoas”.

Para as famílias que não podem ser enquadradas neste apoio estas organizações dispõem de outras respostas de apoio alimentar, que permitem o acesso, regular ou apenas pontual, a um cabaz de alimentos. Iolanda Costa, técnica do Centro Paroquial do Estoril, explica que como o Centro tem uma “mercearia que apoia famílias não abrangidas pelo POAPMC, foi possível estar sempre na linha da frente, de forma a não deixar ninguém de fora”. Para que isso, diz, foi criada “uma rota de entrega ao domicílio para situações de risco acrescido, como os idosos ou os doentes crónicos”

Para os munícipes idosos, ou noutras situações de dependência, impossibilitados de confecionar as suas próprias refeições, já existiam antes do cenário de pandemia respostas adequadas que providenciam uma ou duas refeições diárias. A Santa Casa da Misericórdia de Cascais e a Fundação “O Século”, entidades executoras deste projeto, afirmam ter registado um aumento de procura para este serviço no primeiro semestre de 2020, por comparação com o semestre anterior.

A Rede Social posta à prova

Catarina Vitorino, técnica da Câmara Municipal de Cascais, frisa a rapidez com que as organizações de combate à privação do concelho de Cascais se adaptaram às regras impostas pelo confinamento obrigatório, que originaram alterações de funcionamento que perduram até hoje. “Numa 5ª feira percebemos que ia tudo fechar e na 2ª feira seguinte continuava tudo a funcionar”, conta.

Um dos desafios que, em alguns casos, as entidades tiveram de ultrapassar foi a falta de recursos humanos. Catarina Vitorino conta que algumas “instituições reduziram imenso o número de voluntários e tiveram que contar com a articulação com as Juntas de Freguesia e com a Câmara, para encontrarem quem os substituísse”. Um quadro que afetou, nomeadamente, vários polos de distribuição alimentar que são assegurados por organizações com muitos voluntários seniores, como as Conferencias Vicentinas. Sendo pessoas de risco, repentinamente, muitas deixaram de estar disponíveis.

As restrições à mobilidade impostas pelas preocupações de saúde pública trouxeram outros desafios diferentes, que alteraram também a forma de funcionar de várias respostas. No caso das mercearias sociais, por exemplo, os utentes deixaram de poder ter acesso direto aos espaços e escolher livremente a composição do seu cabaz de produtos e passaram a receber os cabazes já prontos. Catarina Vitorino sublinha: “não se perdeu a noção de que esta não é a solução ideal. É uma situação de exceção”.

Uma cultura colaborativa à altura das necessidades

O atual contexto de crise, obrigou ainda à criação de respostas novas e mais específicas, para responder às necessidades concretas que surgem devido à pandemia, que vêm acrescentar valor e mais eficácia, à grande diversidade de organizações e apoios que já existiam no terreno.

Uma dessas novas respostas é a Bolsa de Emergência Social, um sistema de apoio às despesas das famílias que inclui a renda de casa e outros consumos relacionados com a habitação, medicação, transportes e processos de legalização. Dos 66 pedidos de apoio recebidos, mais de metade foram para pagamentos de renda de casa, aos quais foram atribuídos um valor médio de 320 euros.

Para Catarina Vitorino, este projeto é um bom exemplo que mostra como foi possível “as respostas dadas pelo município na área da privação terem sido postas em prática no território com rapidez”, graças a uma rede de parceiros que, juntando-se e colaborando entre si, tornaram possível a sua concretização. “Está tão automatizada esta mecânica de trabalhar em rede”, afirma, “que as pessoas continuaram a fazê-lo”. A Bolsa de Emergência Social foi criado em parceria pela CMC com a Associação de Apoio Social Nª Srª da Assunção da Malveira da Serra, Associação de Beneficência Luso-Alemã, Centro Paroquial do Estoril e Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos.

Para esta técnica, esta é a chave para que as coisas continuem a resultar. Uma cultura de trabalho colaborativo que prepara as redes de parceria para cenários mais imprevisíveis, como o que estamos a viver atualmente. Desta forma é evitada a multiplicação de apoios e garantem-se os encaminhamentos para o parceiro que está mais apto a prestar a resposta mais adequada.

Paralelamente, uma monitorização regular e atenta, vai garantindo os ajustamentos necessário à realidade dos territórios, que pode alterar-se de semana para semana.

Ainda com muitas interrogações sobre o que os próximos meses nos podem trazer, Catarina Vitorino afirma que as instituições da Rede Social de Cascais estão a aceitar que “este momento é um momento particular” e mostram estar prontas para “fazer as coisas com um esforço adicional”.