COVID-19: Na linha da frente com o Centro Comunitário da Paróquia da Parede

19 de Maio de 2020
helenabonzinho

Quando as medidas de desconfinamento vão permitindo a reabertura de diversas respostas sociais, os Centros de Dia, como o do Centro Comunitário da Paróquia da Parede, permanecem encerrados. Mas isto está longe de significar qualquer paragem de atividade. A Rede Social Cascais falou com Alexandra Colaço, Diretora Técnica do CCPP sobre experiência de trabalho desenvolvido durante a fase de isolamento obrigatório , que originou mudanças profundas nas formas de intervenção com população sénior.

As preocupações no início da pandemia

“Aquilo que era feito, deixou sequer de poder seguir esse rumo, de modo que tivemos que usar as capacidades de cada um , adaptar as equipas e as suas funções a tarefas novas, a coisas que até não eram da sua competência. Mas efetivamente, quando reina caos, as pessoas unem-se e mostram capacidades que às vezes não se conseguem avaliar noutras situações ditas normais”. Alexandra Colaço conta que a fase inicial da epidemia foi particularmente preocupante porque envolveu reformular uma prestação de cuidados baseados na proximidade física e no toque, a que se juntou a falta de meios de proteção individual, quando subitamente se tornaram bens escassos de primeira necessidade.

O que retira desta fase “foram as sinergias da comunidade, a disponibilidade e a envolvências, as redes que se criam nestas alturas de dificuldade, é  incrível como é que a mobilização se consegue fazer em torno do todo. A solidariedade das pessoas, a capacidade de quererem ajudar, de contribuírem para minimizar os estragos de uma situação crítica”

Equipa SAD equipada com batas reutilizáveis produzidas com apoio de voluntárias

A reformulação dos serviços

Os cuidados prestados no serviço de apoio domiciliário foram mantidos e tiveram que ser reforçados para se conseguir dar respostas às pessoas que estavam em centro de dia e que foram canalizadas para esta resposta domiciliária. Assim, foi possível assegurar refeições em casa, cuidados de higiene pessoal, apoio na toma da medicação. Para alguns idosos , o facto de ficarem em casa na altura de confinamento foi uma mais valia porque tinham também a companhia dos familiares, mas para outros este suporte não foi possível ou não existia, tornando os cuidados prestados ao domicílio uma resposta vital.

Terapias à distância: apoio psicológico e fisioterapia

Manter os vínculos e o convívio à distância

O CCPP adotou de imediato estratégias para minimizar a perda da socialização, com a animadora e o psicólogo da instituição a garantirem contactos diários que visavam transmitir sentimentos de segurança e conforto e manter algum tipo de atividade física e cognitiva.

“Nunca poderíamos deixar cair, nem deixar de continuar a ter a equipa de técnicos, que através dos contactos diários, transmitem uma garantia de segurança e de partilha. No dia em que ligam, para já ficam agradecidíssimos, que é uma coisa que enche completamente o coração. Mas para além disso, a expectativa de saberem que , do outro lado, apesar de eles não estarem onde é habitual, terem as suas rotinas completamente cortadas, têm quem esteja preocupada com eles. Saber o que vão comer. Às vezes são coisas banais mas é a importância de haver alguém do outro lado a olhar por mim.”

Outra atividade que foi desenvolvida foi o Jornal da Quarentena. Para alimentar relações e proporcionar uma forma de convívio à distância, esta publicação mensal de 4/6 páginas é elaborada com base na informação recolhida com cada utente quando o CCPP faz a distribuição de refeições ao domicílio. Os utentes são os atores principais , contribuindo com ideias, sugestões, receitas gastronómicas, dicas ou simplesmente mensagens sobre o que gostariam de fazer assim que terminar a pandemia. Existe uma versão em pdf para os utentes que estão acompanhados e com acesso a meios tecnológicos e uma versão em papel para quem está sozinho ou sem acesso a meios digitais.

As interrogações face ao desconfinamento

A expectativa de haver uma reabertura do centro de dia para breve coloca alguns desafios. Alexandra Colaço reconhece que a instituição vai ter que contornar algumas limitações que tem, por exemplo, ao nível do espaço do refeitório, para que seja possível observar as regras de distanciamento entre utentes. As condições psicológicas e físicas dos utentes quando regressarem, serão também alvo de acompanhamento consistente porque o isolamento prolongado produz sequelas, mesmo que se tenha estado acompanhado. O conhecimento individualizado será fundamental para detetar os que poderão estar mais em risco de deprimir. É preciso recuperar o que o tempo sem cuidados de proximidade gerou, devido à obrigatoriedade de não se poder estar perto. “Eu penso que temos capacidade para nos desdobrarmos e reinventarmos no que for necessário. Acho que está ao nosso alcance fazer, com todos os apoios e solidariedades, e cooperação das diferentes entidades, a Câmara, etc. Tenho a certeza que chegaremos a fazer um bom caminho, para dar a estas pessoas”.